O Custo do Invisível: Ensaio sobre Depressão e Prevenção do Suicídio

9 de setembro de 2025 Por casasaintroman

O Custo do Invisível: Ensaio sobre Depressão e Prevenção do Suicídio

Há números que não cabem em cálculos nem em planilhas. São cifras que respiram, que atravessam os dias silenciosamente. Mais de um bilhão de pessoas no mundo vivem com algum tipo de perturbação mental, mas apenas uma fração mínima encontra o cuidado adequado. Oito em cada dez seguem à deriva, navegando entre consultas adiadas, medicamentos mal ajustados, olhares que não chegam. É como se a humanidade caminhasse com uma sombra coletiva, que não aparece nas fotografias de família, mas se senta à mesa em cada casa. Enquanto isso, o tempo escorre: bilhões de dias de trabalho perdidos, infâncias que já conhecem a palavra desassossego, juventudes que tropeçam no peso do próprio futuro.

Os relatórios da Organização Mundial da Saúde não falam apenas em estatísticas. Eles descrevem uma espécie de silêncio global, um mutismo coletivo diante da dor. Apenas nove por cento das pessoas com depressão recebem tratamento minimamente adequado. O restante segue em corredores lotados, em esperas que se arrastam, em diagnósticos interrompidos. Não é que faltem nomes para a doença, faltam mãos que a segurem. O investimento dos países em saúde mental raramente ultrapassa dois por cento dos seus orçamentos, como se a mente fosse um detalhe, como se o sofrimento não custasse nada. No entanto, custa: custa o corpo que se entrega, o trabalho que se perde, as relações que se esfarelam no dia a dia.

Há ainda o peso silencioso das idades. Crianças que deveriam estar brincando já conhecem a ansiedade, adolescentes que colecionam diagnósticos antes mesmo de colecionar memórias. Um terço dos transtornos mentais aparece antes dos catorze anos, os jovens adultos, entre vinte e vinte e nove anos, carregam o maior aumento das últimas décadas, como se a passagem para a vida adulta viesse ladeada por um deserto. O que poderia ser a primavera da vida acaba se tornando estação de alerta.

Quando pensamos em saúde mental, talvez ainda imaginemos consultórios distantes, medicamentos caros, terapias reservadas a poucos. Mas a depressão e a ansiedade atravessam a porta de qualquer casa, não escolhem endereço nem profissão. Elas aparecem na mesa do café da manhã, quando o pão esfria sem ser tocado, ou no trabalho, quando o olhar se perde em uma tela sem que nada faça sentido. A doença não é invisível porque não existe; é invisível porque não sabemos, ou não queremos, nomeá-la. A sociedade ainda teme encarar a mente como parte do corpo, como se as dores da alma fossem um capricho ou uma fraqueza.

O suicídio, que em 2021 levou mais de setecentas mil vidas, talvez seja a expressão mais dura desse desencontro. Não são apenas números em relatórios: são nomes que não ouviremos mais, histórias interrompidas em silêncio. A meta de reduzir essas mortes até 2030 esbarra na lentidão das políticas, no descuido dos sistemas, na negligência que ainda insiste em achar que saúde mental pode esperar. Mas cada espera tem um preço, cada adiamento cava mais fundo o abismo.

E, no entanto, há algo que resiste. O cuidado não se resume a remédios ou estatísticas; ele começa no gesto simples de ouvir, na escuta que se oferece sem pressa, no reconhecimento de que ninguém é apenas um diagnóstico. Quando falamos em reformular serviços, em ampliar investimentos, falamos também em restaurar uma dimensão humana: devolver à vida sua textura, devolver aos dias sua cor. É preciso costurar redes de afeto, investir em comunidades, transformar o que hoje é ausência em presença.

Setembro chega tingido de amarelo, como se a cor quisesse lembrar que ainda há luz mesmo quando tudo parece escuro. O mês tornou-se símbolo mundial da prevenção do suicídio, e o dia 10 carrega a marca de uma data de conscientização. Não se trata de um calendário vazio, mas de um convite a olhar para o lado, a perceber que o silêncio de alguém pode estar pedindo ajuda. A cada ano, milhares de vozes se apagam antes do tempo, e a lembrança desse dia nos convoca a quebrar os tabus, a falar do que tantas vezes é escondido em quartos fechados e sorrisos ensaiados.

Prevenção não é apenas criar campanhas ou divulgar números. É oferecer espaço para que a dor seja dita, para que o sofrimento encontre acolhimento antes de se transformar em despedida. É reconhecer que cada vida tem um peso incalculável, que cada gesto de escuta pode se tornar uma margem segura para quem se vê prestes a cair. O amarelo de setembro não é cor de alerta apenas, é também cor de esperança: lembra que, mesmo diante das falhas do sistema, das estatísticas duras, ainda podemos escolher ser presença na vida uns dos outros.

Falar de saúde mental é falar de humanidade. As estatísticas que assustam não são apenas números, são vidas que respiram, esperam, sofrem. Mais de um bilhão de pessoas atravessam diariamente os labirintos invisíveis da mente, enquanto apenas uma pequena parte encontra cuidado adequado. O custo humano e social é imenso, mas não pode ser reduzido a perdas econômicas ou dias de trabalho interrompidos. Cada vida é um mundo inteiro, e a ausência de tratamento digno é uma ferida que se espalha em silêncio.

Se setembro nos lembra da urgência de falar sobre suicídio e prevenção, que esse chamado não se limite a um mês do ano. Que ele se estenda às políticas públicas, às escolas, às famílias, aos espaços de trabalho e aos gestos cotidianos. A cor amarela nos recorda que, mesmo em meio à escuridão, ainda existe a possibilidade da claridade. É tempo de cuidar não apenas dos corpos, mas das mentes que os habitam. De romper o estigma, de ampliar o investimento, de transformar silêncio em escuta.

Talvez o maior gesto de resistência, diante de tantos dados e de tanta dor, seja insistir na esperança. Esperança de que cada número esconda uma vida que pode ser tocada, de que cada estatística possa se tornar história de superação. A saúde mental não é luxo, é direito. E reconhecê-la como tal é devolver à humanidade o que ela tem de mais essencial: a capacidade de se reconhecer no outro e de oferecer, ainda que em meio à penumbra, um pouco de luz.

Bibliografia

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). World Mental Health Today Report. Genebra: OMS, 2025.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates. Genebra: OMS, 2017.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Suicide Worldwide in 2019: Global Health Estimates. Genebra: OMS, 2021.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Comprehensive Mental Health Action Plan 2013–2030. Genebra: OMS, 2021.
  • Organização das Nações Unidas (ONU). Sustainable Development Goals – Target 3.4: Reduce by one third premature mortality from non-communicable diseases through prevention and treatment, and promote mental health and well-being. Nova Iorque: ONU, 2015.
  • G1. “Apenas 9% das pessoas com depressão recebem tratamento adequado, afirma OMS”. G1 Saúde Mental, 02 set. 2025.
  • SIC Notícias. “Mais de mil milhões de pessoas vivem com perturbações mentais”. SIC Notícias Saúde Mental, 02 set. 2025.

Por: Dr. Caio – Médico Coordenador Ambulatório da Casa de Saúde Saint Roman